VOTAÇÃO DO CONCURSO DE CONTOS "Escombros"

Apresentamos o conto "Escombros" do autor Sérgio Bernardo
Leia aqui o conto na íntegra. Para votar, é só curtí-lo Escombros no Facebook
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ESCOMBROS

 — Saio, não, Inácia.
Com essa decisão verbalizada, pernas magras se arrastando pelas lajotas seculares, a velha vai abrir o baú.
— Leve esses dobrões e venda – ela estende uma sacola de feltro. — Alugue um quartinho e vá comendo até chegar a sua hora. Eu fico.
A negra Inácia calada, o ouro reluzindo entre os panos da trouxa, dá a derradeira espiada no aposento e no rosto da patroa. A lágrima única escapa do choro que brota ao contrário: escorre por dentro.


Diabo de velha teimosa”, pensa, porque a inconformidade não tem coragem de sair pela boca. Sai depressa e fecha a pesada porta, como pondo um ponto final em 80 anos de sua vida.
Laura de Sá fez 92 anos, idade mais que suficiente para, digna e resoluta, apenas olhar pelo janelão a ex-escrava Inácia descendo a ladeira ao lado de uma gente pobre, à frente de bestas de carga e carroças que levam móveis e utensílios. É o último grupo de moradores — os mais resistentes — a ser retirado. Após o meio-dia subirá a guarda para a inspeção final.
De novo debruçada sobre o baú, apanha a espada. Passados três séculos e meio, ainda brilha e assusta a lâmina que trespassara índios e flibusteiros na conquista da Baía de Guanabara. Agora a relíquia sumirá com ela e tudo em volta.
“Não te respeitaram, guerreiro, e muito menos a História...” – rumina enquanto vai polindo o metal. “Corja de inescrupulosos... bando de sacrílegos... canalhas!”
De uns tempos pra cá, deu de maldizer assim, amarga. “Bom que chegue o fim.”
Na cristaleira, junto à jarra branca de porcelana, repousam os tantos mil-réis com os quais comprará o silêncio do soldado em vistoria no casarão. Na trempe, a sopa ainda está fumegando. Estranhíssima a iminência da última refeição. Lembra os condenados à morte: “Comer para quê? Para que, ainda por cima, um último desejo?” Nega-se o prato quente de misericórdia que a velha Inácia deixou pronto minutos antes de partir. E um último desejo, pudesse ter, seria ver o prefeito Carlos Sampaio cozinhando nas chamas do inferno.
Espreguiçando-se, de repente a gata sai de trás do fogão, pula para o colo da velha, que sentou à cabeceira da grande mesa onde depositou a espada. O pelo é macio e limpo. Ela o afaga por um tempo que será quase todo o restante da sua vida, e a bichana dorme.
— Tem alguém aí? – a porta se move nas dobradiças gastas. — Ei, senhora, não foi com os outros?! É preciso que venha comigo já! Barbaridade a terem abandonado... Já cercaram todo o morro com dinamite. Eu ajudo, venha...
— Saio, não, meu filho – ela se ergue, os olhos dela mostrando-se duros. — Aqui nasci, aqui nasceram meus pais e avós, aqui meu tataravô assentou a primeira povoação desta cidade do Rio de Janeiro, consagrada a São Sebastião...
Benze-se.
— A casa tem quase trezentos anos, a igreja ali em cima é ainda mais antiga... Se vai abaixo o Morro do Castelo, acabando com a memória dos de Sá, escolho morrer junto. Ademais, tenho idade, filho, e a vida lá embaixo não é para mim. Pegue esse dinheiro que está aí na cristaleira. É bastante. Diga que na revista final não viu ninguém.
Ele ameaça um passo, indeciso se a pega à força ou não.
— Não! Fique aí! Essa espada que pertenceu a Estácio de Sá tem ainda um fio capaz de lhe cortar o pescoço...
Com um golpe preciso (talvez nascido da vontade férrea e da herança do sangue guerreiro) a velha corta no ar linguiças penduradas sobre as trempes, provando ter réstia de força para sangrar um homem.
— Essa gata sobre a cadeira, leve-a junto.
O guarda pensa mais um instante. Muito breve. “Meu soldo é um nadinha. Ela que quer morrer...” Vem e abraça o bicho, mete os mil-réis na algibeira.
— Bruxa louca! – xinga e sai, trancando a porta a chave, conforme o capitão instruiu como sinal da vistoria feita.
A velha permanece no lugar, triste, não por ela, que nada tinha contra a vida até o fiscal da prefeitura ter vindo há alguns meses com a ordem de despejo. Triste, e muito, por saber o Morro do Castelo prestes a ser demolido, sepultando um rosário de lendas e memórias, diversas construções históricas e relíquias como a espada que foi do fundador da capital da república, neste ano da graça de 1922.
Do janelão assiste à debandada dos soldados. Ao longe, olha o Morro Cara de Cão, que dizem ser o verdadeiro marco da fundação do Rio de Janeiro.
“Qual o quê!” – ironiza para consigo. “Vosmicê aí, intocável, debochando dessa pedra de cá, condenada...” O pensamento é senil e a velha até sorri...
Milhares de segundos e ela no mesmo lugar, mirando a paisagem, que não endossa a justificativa do prefeito, publicada nos jornais: “A demolição do Morro do Castelo é necessária a fim de deixar mais fresco o ar nas áreas centrais”.
No sopé um soldado com uma gata ao colo se recusa à primeira detonação. Mas ela acontece...
A explosão estoura os tímpanos de Laura. Tudo em torno vira uma nuvem de fumaça, o chão de lajotas engole seus pés, na cabeça pisca a última indignação:

“Alguém vai achar a espada nos escombros...” 

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