VOTAÇÃO DO CONCURSO DE CONTOS "Porto Maravilha"

Apresentamos o conto "Porto Maravilha", da autora Verena Kael (adulta).

Leia aqui o conto na íntegra. Para votar, é só curtí-lo Porto Maravilha no Facebook
(infelizmente curtidas em páginas compartilhadas não poderão ser contabilizadas)

Porto Maravilha
Praça Mauá, sexta-feira de feriado com sol leve e vento fresco. Tinha poucas pessoas presentes entre os museus do Amanhã e o MAR. Um senhor de meia-idade com um tamborim na mão, uma jovem mãe com seu filho de 4 anos e três turistas franceses, duas mulheres e um homem. Um cheiro forte de podre começou a preencher todos os lugares da praça. Através do olfato as janelas das memórias dos transeuntes abriram, pois pensaram quando sentiram aquele cheiro pela última vez. Os turistas tamparam os narizes. Os outros fizeram cara feia e falaram mal do governo carioca. O dia era bonito, mas a Baía de Guanabara era coberta por águas tristes, turvas e escuras. A opacidade da água era o espelho de uma urbanização desenfreada e caótica.


De repente, do meio do nada surgiu um esqueleto humano de 33 vértebras, quadril e cóccix de 8 metros de altura no meio da Praça. Caminhou se arrastando pelo chão, mas não era uma cobra. Seu cântico era como o canto das baleias, mas na percepção humana era um choro pavoroso.
Todos ali presentes se assustaram. Os três franceses gritaram “Mon Die! Mon Die! Mon Die!” A mãe segurou o filho no colo com firmeza e começou a rezar. O senhor ficou paralisado com as mãos trêmulas segurando o tamborim. As testemunhas daquela manhã especial se juntaram em frente ao Museu do Amanhã e olharam fixamente para o esqueleto de grande escala.
Ele moveu-se somente em forma circular com muita lerdeza, os ossos pesados emitiram sons de baleias e entre as vértebras escorreu um líquido viscoso rosado que marcou no chão o seu movimento.
Chegaram mais pessoas em desespero perguntando de onde tinha vindo aquilo. A criança apontou o dedinho para o céu, os franceses tiraram fotos e filmaram em suas câmeras a enorme estrutura óssea. A canção era intensa, oca e continua, no qual a pisada de cada vértebra fez o solo tremer. O vento leve propagou a música insólita em repetidos ecos e o cheiro desagradável desvaneceu.
Todos tentaram adivinhar que animal ou coisa era aquilo com afirmações histéricas. É um ET! É um animal marinho desconhecido! É um ser vivo que sofreu uma mutação genética!
A jovem mãe começou a chorar com seu filho nos braços e ainda afirmou que aquele era seu último momento, pois o fim dos tempos chegara. O senhor muito nervoso deixou o tamborim cair no chão.
O esqueleto parou e as sonoridades das vértebras ficaram mais espaçadas. Quando pegou o tamborim no chão, o balanço fez um som seco que chamou a atenção do esqueleto para sua direção.
O senhor apavorou-se e todos se afastaram dele como se fosse portador de uma doença contagiosa e mortal. Porém, com o nervosismo balançou mais e mais o tamborim.
O esqueleto caminhou em ziguezague, lentamente arrastando a bacia e ficou em silêncio diante do senhor. Muito nervoso e autômato, tocou o tamborim em ritmo lento, suave e sem solavancos. O esqueleto vibrou seus ossos saindo deles sons de várias baleias.
Todos observaram absortos diante do sobrenatural em silêncio, mas as mentes em processo acelerado e repetitivo fizeram a mesma pergunta. O que está acontecendo? Seria sonho coletivo? De fato, ninguém soube a resposta. A única certeza era de terem visto com os próprios olhos algo novo, diferente, exuberante e medonho no centro da cidade.
Todos ali eram compostos de uma vida ordinária e testemunharam um momento inacreditável. Como consequência, foram preenchidos de fantasia, imaginação, fábula, invenção e utopia. Ao fundo, uma música incidental surgiu composta de barulho das sirenes da policia e helicópteros da defesa civil sobrevoaram a Praça.
O esqueleto se agitou muito e rastejou em forma de espiral em direção à Baía de Guanabara ao lado do Museu do Amanhã. Parou por três segundos e mergulhou, deixando apenas seu líquido no chão. Todos correram para vê-lo imergir, mas não encontraram nada. Havia apenas o lixo flutuante sobre as águas negrumes a exibir somente sombras borradas das pessoas no espelho d´agua. Logo após, o cheiro pútrido voltou.
O senhor continuou hipnotizado com tudo que vira e a mãe beijou o filho no rosto muitas vezes, clamando que o demônio partiu para sempre. Já os três turistas franceses tiraram mais e mais fotos e postaram no Facebook a maravilha da viagem. Os demais resmungaram especulando que animal seria aquele, quanto ganhariam caso o capturassem, as glórias e desventuras de viver numa cidade delirante e se sentiram importantes por terem avistado algo enigmático.
Um repórter chegou atrasado e entrevistou o senhor com seu tamborim. Ainda muito nervoso, trocou o R pelo L, gaguejou e contou histórias de seu avô, que foi pescador no Rio Grande do Norte. Todos o cercaram, o que fez sentir-se uma pessoa importante naquele imenso mundo de 15 minutos. Os franceses mostraram as fotos tiradas e tentaram falar algumas palavras em português do tipo: “A cidade é maravilhosa!”
O repórter tinha uma cara decepcionada, pois sabia que havia perdido a oportunidade de realizar uma grande matéria exibicionista. Com as mãos trêmulas, falou no microfone casos anteriores: dois turistas ingleses que encontraram uma cobra na Praia de Copacabana em frente ao Hotel Copacabana Palace e um jacaré nadando na Lagoa Rodrigo de Freitas, junto com os remadores do Clube Botafogo. E ainda comparou o espetáculo com o Monstro do Lago Ness, da Escócia. Porém, aquele animal era diferente de tudo que já fora visto.
O único que ficou na beira da baía foi o senhor para dar esclarecimentos, pois todos foram expulsos pela polícia. A área sofreu isolamento durante 15 dias para análise do material viscoso, que era a única prova da existência do enorme osso branco. Mesmo assim, todos tinham na memória coletiva a mesma pergunta que perdurou até o último dia de suas vidas: o que era aquilo?

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