VOTAÇÃO DO CONCURSO DE CONTOS "Sobras da Lapa"



Apresentamos o conto "Sobras da Lapa", da autora Luisa Benevides Valle (adulto).

Leia aqui o conto na íntegra. Para votar, é só curtí-lo Sobras da Lapa no Facebook
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Sobras da Lapa
O carnaval de Maria era na quarta-feira de cinzas. Ela e o sol de fevereiro acordavam juntos, arregalados pro dia. Lá fora, a cidade cheirava a promessas feito manhã de Natal.
A menina desgrudava as costas do colchão sem lençol e, com passos de garça, desviava dos sonos dos irmãos até alcançar o vestido mais próximo. Em seguida, rumava pro banheiro. Água no rosto, nos cabelos e debaixo dos braços.


Ia pra cozinha de banho forjado, onde a mãe e um pão com manteiga a esperavam. Enquanto engolia o miolo dormido, ouvia conselhos de café:
- Presta atenção nos carros na hora de atravessar, não chega tarde, não traz lixo pra dentro de casa, vê se acha coisa que presta na rua, não esquece as latinhas. Juízo, menina.
- Benção, mãe.
- Deus te abençoe, minha filha.
Beijo na testa e Maria escancarava pra rua, munida de sorrisos e de sacolas entre os dedos. Durante os quatro dias de carnaval, a alegria era dos outros:
- Só tem bêbado lá fora, é muita confusão, se o povo te leva, você não volta mais.
Trancada em casa, a garota imaginava o bloco sambando pra longe, tão longe até não voltar mais. Que maneiro, ela pensava, um lugar cheio de gente perdida de carnaval.
Quando eu crescer, me perco assim.
Seus dedos curtos contavam os dias pra quarta-feira de cinzas. Era quando o carnaval a pegava de jeito. Em meio a retalhos de fantasias, confetes encardidos e lixeiros atarefados, Maria se deixava levar por restos de foliões.
A menina enchia a boca pra falar o nome de sua rua: Rua da Ladeira. Nada de nome de General, palavra difícil na língua da gente. Sua ladeira tinha nome de ladeira.
Simples, não?
Descia a rampa de um fôlego só. Braços abertos, cabelos soltos, sacolas infladas ao vento. A ladeira era o pedaço de Maria no mundo. Já diziam seus joelhos carimbados. 
A rua debaixo se chamava Riachuelo, assim mesmo, de língua enrolando no final. Era só pisar no asfalto que seus olhos eram todos chão. Prédios pichados acinzentavam a menina. Os botecos pareciam unhas carcomidas com focos de poeira. Mas ao redor de seus pés... Bueiros, calçadas e sarjetas salpicavam as cores do carnaval que já foi.
As pupilas de Maria eram adestradas pra brilhos. Catar latinhas? Nos outros trezentos e sessenta e quatro dias do ano, seu olhar se treinava pro reflexo do metal sob o sol. Mas na quarta-feira de cinzas, ela esquecia. Latinha não tem purpurina. Nem paetê.
Seguia distraída pra Rua do Lavradio. Enquanto a faxina prosseguia, ela se camuflava nas ruas da Lapa. Se bobeasse, a varriam em meio a serpentinas e garrafas vazias de cerveja. Seus pés descalços tinham um quê de invisível.
A menina preferia assim, sem ninguém pra encher o saco. Quando os adultos a viam sozinha por aí, viravam logo pai e mãe: lugar-de-criança-é-na-escola, tem-que estudar, não-deve-ter-família, coitadinha-dela. Maria encasquetava. Que mania chata de meter o bedelho na vida dos outros.
Mas, em dia de faxina, os outros nunca tinham tempo pra criança. E foi assim, de pele transparente, que ela viu chutarem um isqueiro. Correu até ele, olhou pra um lado e pro outro. Ninguém deu por mim, concluiu. Acendeu o fogo. A chama trouxe um frio na barriga.
E se...
Desceu a Mem de Sá, enquanto os olhos vasculhavam no chão algo em específico. Achei! Era um cigarro pela metade e com marca de batom. Melhor que seja de mulher.
Maria escolheu um canto de calçada sem lixeiros nem mendigos por perto.
Sentou-se na beira e foi tirar uma curiosidade sua de pequena. Achava tão bonito fumaça
saindo da boca... Limpou o filtro do cigarro na barra do vestido, até sobrar somente um borrão
rosado. O suor gelava entre os dedos, mas ainda assim ela fez bico de gente crescida, botou a bituca na boca e acendeu.
- Cof! Cof! Cof! Coooooof!
Tossiu por todos os buracos do corpo. A cabeça era um bule d’água fervendo:
apitava por dentro e explodia pelas orelhas, olhos e nariz. Maria jogou longe o cigarro, mas guardou o isqueiro na sacola. Adulto tem cada uma... Que bom que sou criança. Quando a tonteira passou, veio um gosto alegre de ser pequena. Ela sambava e
cantarolava, os olhos bem fechados pra ver carnaval. Enquanto rodopiava, sentiu espetar a sola do pé. O olho esquerdo espiou miúdo, enquanto o bloco continuava pulando no direito.
Lantejoulas rosas e douradas formavam uma máscara. Penas laranjas murchavam no topo, feito fruta que madura demais. A garota abriu grande os dois olhos e o carnaval fugiu com medo da claridade.
- Nossa, que linda!
As mãos formigavam enquanto davam um nó no elástico arrebentado e vestiam o adereço. Com os olhos tapados, se sentia mais invisível do que nunca. Mais à frente, um nariz de palhaço rolava solto no asfalto. Foi só vestir que ela sentiu pinicar. Guardou na sacola. Quando mamãe me der bronca, vou virar palhacinha, aí vamos ver se ela aguenta. Maria sorriu pequeno ao ver a mãe tentando se segurar. A bolinha vermelha era danada pra afrouxar o riso. Aqui e ali, a menina catava miudezas. Batom azul, sapatilha sem par, chapéu de pirata, dente de vampiro, asa rasgada de anjo, pistola d’água quebrada, coroa de princesa, medalhinhas enferrujadas de cigana. Pra sacola, pra sacola e pra sacola.
Lá pelas tantas, ela estava entulhada de nadas. Hora de ir pra casa, pensou. Só quero ver a cara da minha irmã quando eu botar a coroa de princesa. Já rumava toda prosa pra Riachuelo, quando... Bem debaixo dos Arcos da Lapa, notou um montinho rebentando coloridos, em contraste com a paisagem que se encardia ao redor. Ela foi se achegando de mansinho, pra ter certeza de que não via coisa. O estômago vazio pregava suas peças. Mas não. Era mesmo de verdade. Uma montanha de confetes só pra ela! Olhou em volta. Nenhum homem de laranja por perto. Juntou depressa bolos coloridos e jogou pro alto. E de novo. E de novo.
Maria jogou até ser só ela e confete no mundo. Depois deitou, se afundando no monte de bolinhas. Um sorriso mole bagunçava seu rosto.
A menina era toda carnaval.

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