VOTAÇÃO DO CONCURSO DE CONTOS "Uma menina chamada Dora"

Apresentamos o conto "Uma menina chamada Dora", da autora Daniela Atolin (adulta)
Leia aqui o conto na íntegra. Para votar, é só curtí-lo Uma menina chamada Dora no Facebook
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UMA MENINA CHAMADA DORA

Todas as manhãs, antes do sol nascer, Dora espreguiçava languidamente o pequeno corpo moreno na cama. Abria os olhos lentamente, acostumando-se com a pouca claridade que adentra pelas frestas da janela. Preguiçosamente movia-se com lascívia, enquanto preparava o espírito para começar o dia.

Os pés pequenos tocavam o chão frio, provocando arrepios. Suspirava enquanto encaminhava-se para o banheiro. Outro dia, mais um dia. Uma nova chance. No pequeno espelho pendurado na parede admirava a face redonda, os olhos profundamente negros, e os cabelos rebeldes, enrolados, que continham vida própria. Abria um imenso sorriso, mostrando os dentes brancos emoldurados pelo carmim dos lábios. Ligava o chuveiro e deixava a água morna tocar seu corpo inteiro, envolvendo-a num abraço aconchegante.
Envolta na toalha saía do banheiro cantarolando uma música de Tom Jobim. Escolhia um vestido branco leve, com rosas vermelhas miúdas estampadas. Uma rasteirinha e muitas pulseiras completaram o visual. Rodopiava pelo quarto enquanto ajeitava os cabelos que caiam, generosamente, pelos ombros.
Colocava no fogão o bule com água. Separava o pão francês, abria e passava a manteiga. Mordia, fechando os olhos, deliciando-se com o sabor. Preparava o café e sentava-se a pequena mesa (uma caixa de papelão invertida), arrumando a garrafa de refrigerante que servia de vaso para as margaridas em cima da toalha colorida e sentava, ajeitando-se em cima de uma almofada. Degustava o aroma, o sabor, a simplicidade. Fazia carinho no gato, que se enroscava em suas pernas.
Pegava a bolsa onde cabiam todos os seus sonhos, o dinheiro para o ônibus, fechava a porta do seu lar e descia o morro, transpirando alegria e fé, rumando para mais um dia de trabalho.
O ano de 2015 havia sido realmente conturbado, e Dora fora demitida. Numa tentativa de assalto, ela perdera o único companheiro, o pai. Diante dos fatos, e com a crise econômica, despejaram Dora do apartamento onde morava, e viu-se de mudança para o morro. Inutilmente buscou recolocação profissional. Ou não tinha experiência e qualificações exigidas para o cargo, ou a pouca idade não dava a credibilidade que seus empregadores queriam. Chorou por dias seguidos, por longas noites, principalmente de saudades do seu super herói. E descobriu que a vida seguia em frente, com ou sem ela, e que estar sozinha era diferente de sentir-se só. Dora havia perdido tudo, ou quase tudo: permanecia nela, teimosamente, uma alegria de viver e uma vontade de mudar o seu destino que a faziam enfrentar todas as dificuldades, e enfeitar tudo a sua volta.
Três conduções depois, e duas horas de um trânsito quase infernal, permitiram a Dora chegar ao seu ponto de trabalho: a praia. Como muitos brasileiros, arrumara uma solução alternativa para driblar a crise: a venda de lanches na praia de Ipanema. Dois meses gerenciando seu pequeno negócio permitiram a ela pagar o aluguel de seu novo e modesto lar. Deram-lhe a chance de recomeçar, de conseguir, de forma digna, seu sustento. Sem contar que trabalhava na praia, sonho de muitos brasileiros.
Tocava os pés na areia macia, acompanhando o movimento dos primeiros turistas que estavam no local. Localizada na zona Sul da cidade do Rio de Janeiro, Ipanema é uma das praias mais bonita e famosa do estado, e serviu de inspiração para Vinícius de Moraes compor a famosa canção Garota de Ipanema, imortalizada na voz de Tom Jobim. Aos dezoito anos, Dora aprendera a identificar o público que frequentava a praia para oferecer-lhes petiscos que agradassem o paladar. Descobrira que quanto mais naturais eram seus lanches, melhor eram aceitos pelos praticantes de skiboard surf, frescobol, vôlei, futebol e futevôlei. E conquistara seu espaço, com maestria e muita simpatia.
Engana-se quem pensava que o dia de Dora era fácil. Com a bolsa térmica a tiracolo, começava o dia antes do nascer do sol, e só parava depois dele se pôr, pois, durante a noite, entre um evento ao ar livre e outro, distribuía deliciosos sanduíches e sucos naturais. Voltava para casa cansada, mas com o coração em paz. No ônibus, Dora olhava para o céu, e ficava admirada com o brilho das estrelas. Sorria porque sabia que entre elas haviam duas especiais, que estavam sempre olhando por ela: seus pais.
Dora não fazia parte das estatísticas negativas. Ela não queria ser apenas mais um número numa página policial, negava-se a escolher o caminho aparentemente mais fácil e cômodo. Sabia o quanto era bonita e que isso poderia lhe abrir muitas portas. Porém eram passagens que não lhe levariam a lugar algum. Queria voltar a estudar. Queria trabalhar com idosos ou crianças, ser útil, ajudar as pessoas a encontrarem seu próprio caminho. Queria ser professora, ensinar a beleza das letras e o mundo mágico da leitura. Por isso, nas suas horas de folga, Dora viajava nas páginas dos livros que pegava empresados na Biblioteca Pública de sua cidade.
Dora subia o morro, todas as noites, como se dançasse. O corpo balançava suavemente ao som de uma música que seu coração cantava. Corpo cansado, alma livre, coração em paz. No seu lar, doce lar de apenas três peças, Dora abaixava-se para acarinhar Tom, seu gato sapeca e amigo inseparável. Sob a cândida luz da lua que entrava pelas frestas da janela, Dora preparava as guloseimas para o dia seguinte. No cardápio, misturavam-se pães, galinha desfiada, cheiro verde e outras iguarias. Ao mexer na panela a menina misturava amor, esperança e fé.

Todas as noites, quando a lua já brilhava no céu, Dora espreguiçava languidamente o pequeno corpo moreno, antes de deitar entre os lençóis macios de sua pequena cama. Fechava os olhos lentamente, não se importando com a claridade lunar que adentrava pelas frestas da janela. Mentalmente, agradecia o dia que se findava e preguiçosamente acomodava-se abraçando o travesseiro, e preparava o espírito para as novas oportunidades que estavam por vir, no outro dia, mais um dia. Uma nova chance de viver e ser feliz.

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