VOTAÇÃO DO CONCURSO DE CONTOS- "Volta"

Apresentamos o conto "Volta", da autora Cilene Alves de Oliveira (adulto).

Leia aqui o conto na íntegra. Para votar, é só curtí-lo "Volta" no Facebook
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Volta
U
ma mochila basta!
Não queria muita bagagem. Queria a sensação de liberdade! Se precisasse de outras coisas, compraria. E, se resolvesse voltar, teria menos espaço para a decepção.
Preferiu o ônibus ao avião. Queria prolongar ao máximo aquele misto de sentimento. Retorno? Busca? Reencontro?
Acomodou-se no assento à janela. Consigo só a mochila e os melhores companheiros: o travesseiro e um livro. Já que era um retorno, levou o Pequeno Príncipe, repleto de lembranças e saudades. Lembrou do dia em que o ganhara. Sua prima Mary deliciosamente repetira o presente de todos os aniversários:


-Guarde-o com carinho! Ele vai te acompanhar por muitos momentos de sua vida! Ela tinha razão! Com ele nascia o prazer pela leitura. E depois, o abrigo de um amor adolescente. Ele foi grafado, riscado e se tornou único.
“Serás para mim único no mundo. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada.”
E assim, em silêncio, seguiu viagem. Recostou no braço da cadeira, aninhada pelo travesseiro, também fiel amigo de infância e fechou os olhos, embalada pelos movimentos do veículo na sinuosa estrada.

A
cordou sobressaltada! O barulho do trânsito avisava que havia chegado! Não reconheceu de pronto a Rodoviária de onde partira. Tudo tão mudado! Tão moderno!
Escovou os cabelos, retocou o batom, jogou a mochila nas costas. Tinha pressa! Queria sorver o Rio! Ver e provar de tudo!
Seguiu para a Lapa. Optou em ficar no Centro, coração da cidade. Queria ter acessibilidade para a Zona Sul e Zona Norte. Queria percorrer seus velhos caminhos. Hospedou-se num simpático hotel junto à Escadaria de Selarón: será que a cerâmica que doou ao artista ainda adornava a escadaria tantas vezes modificada? Queria se perceber parte do Rio, seu lugar preferido no mundo inteiro!
No dia seguinte cedinho, sacou a mochila - agora já esvaziada de peso e medo, para uma caminha despretensiosa. Automaticamente pegou a Rua Joaquim Silva, desceu a Rua da Lapa, continuou pela Rua da Glória, Praia do Flamengo, atravessou as pistas sobre a passarela. Chegou ao Aterro. Deitou na grama e sentiu o sol batendo na pele. A sensação provocou-lhe um arrepio: era um beijo quente de Deus! Deixou-se ficar ali, naquela entrega até se sentir recarregada. Depois de tanto tempo na “cidade cinza”, já estava com esta demanda reprimida!
Decidiu continuar a caminhada pela orla. O cheiro do mar era também um remédio para sua alma! Lembrou dos incontáveis pores de sol assistidos na praia (“Quando a gente está triste demais, gosta do pôr-do-sol.").
Teve saudade de pisar na calçada mais famosa do mundo, a deliciosa Babel-Copacabana! Num impulso, correu para o ponto de ônibus ainda a tempo de pegar o que vinha chegando. Na janela, com os prédios e lojas, um filme em sua cabeça. Foi interrompida pelo vendedor de balas:
- Bom dia, meus senhores e suas senhoras. Desculpe interromper a paz de sua viagem. Estou aqui apresentando um novo produto do mercado alimentício da ordem dos caramelados.  Eu poderia estar matando, poderia estar roubando, mas estou humildemente vendendo minhas balas pra alimentar o batalhão de filhos – e sogras! – que eu tenho.
- Bem, agora realmente estou no Rio! Pensou, rindo!
Chegando em Copa resolveu saltar no primeiro ponto. Queria ganhar o bairro a pé. A praia estava especialmente linda naquele dia! Apesar de ser dia “útil”, havia muita gente por ali: idosos e seus acompanhantes, jovens mães com carrinhos de bebês, atletas e casais davam vida ao lugar, num vai e vem lindo e saudável de gente que escolheu o Rio para morar. Era a vida que desejava no momento!

E
nquanto almoçava, reparava nas pessoas e imaginava suas histórias. Porque estariam ali e para onde iriam. A senhora sozinha parecia enrolada para servir os filhos agitados, indecisos e famintos! O casal oriental com tantos aparatos tecnológicos! Estariam de férias? O simpático casal apaixonado: com certeza lua de mel!
Parou de imaginar as outras histórias para concentrar-se na sua! Impulsiva, deixou-se levar pela emoção, como tantas vezes. Lembrou dos bate papos informais na internet com os amigos de escola. Acabou se envolvendo com um dos meninos (hoje não tão menino assim) de sua turma. Ele falou de sua vida, o quão bem sucedido se tornara, como seria bom caso se vissem novamente. Acabou convidando-a para passar uns dias no Rio. “Em nome dos velhos tempos”.
Estava mesmo com férias vencidas. E num grande estresse da rotina constante. Precisava novos ares! Combinou o programa: os mesmos passeios escolares. Inúmeros, uma vez que estudaram juntos praticamente todo o Ensino Fundamental! Lembraram no dia que entraram na caverna do Campo de Santana para ver as estalactites e as estalagmites! Mesmo local onde ganhara, pela primeira vez em sua vida, uma flor, que hoje seca, mora na latinha colorida com outras pequenas tralhas: reálias da infância e adolescência.
- Aproveitamos então para visitar a Biblioteca Pública ali ao lado – disse, relembrando, saudosa, as tarde passadas entre os livros – Vi na TV que está linda, toda reformada!
E passavam horas relembrando as saídas, os tempos vagos que passavam perto da Catedral Metropolitana, as esticadas para aplaudir o por do sol em Ipanema. E tantas outras horas planejando onde iriam pela primeira vez: Floresta da Tijuca, Teleférico do Alemão, Real Gabinete Português de Leitura.
- Mais alguma coisa?
- Hã?
- A senhora deseja mais alguma coisa?
Nem se deu conta do tempo que passara. As pessoas já haviam saído e o garçom já estava mal-humorado com a cliente que atrasava o fim do expediente.

D
ecidiu que aquele seria o Dia D! Ligaria para o amigo, marcando o tão esperado encontro. Meio trêmula pegou o telefone, ao mesmo tempo segura e confusa. Sabia o que queria, mas temia não empregar as palavras certas.
- Amadeus? Oi. É a Verônica, sua amiga de infância. Tô aqui no Rio! Silêncio no outro lado da linha.
-Alô? Repetiu.
- Quem? Replicou Amadeus.
- Verônica, lembra? Sua colega de escola. A gente tem se falado no Face. É que eu resolvi passar uns dias no Rio e pensei da gente dar uma volta. Caso dê pra você, claro!
Mais alguns segundos de silêncio.
- Oi, gata! Que doideira você aqui! É que... eu estou meio enrolado... meu avô ta meio mal e... hoje é o meu dia de ficar no hospital com ele. Mas a gente pode marcar qualquer dia. Você vai embora quando?
Verônica percebeu a desculpa esfarrapada e a falta de ânimo de seu “amigo” para o tão esperado reencontro.
- Não se preocupe não. Tô aqui com a maior galera e a gente está se divertindo bastante. Praticamente não parei desde que cheguei! Qualquer hora eu ligo pra gente marcar. E olha... diz ao seu avô, (engoliu seco)  -  que... eu espero que ele melhore!
As lágrimas já desciam quando desligou. “A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixa cativar”.
- Os homens são iguais em qualquer lugar do mundo! Pensou alto.

Desta vez não escovou os cabelos, nem retocou o batom. Jogou a mochila nas costas e pediu um taxi para o Aeroporto Santos Dummont. Precisava voltar o quanto antes para a sua rotina jacente e segura!

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